Uma boa resenha de clássico não precisa virar confissão de gosto pessoal, nem lista de “melhor/pior”.
Quando você troca “eu gostei/odiei” por observações verificáveis, o texto fica mais justo com a obra e mais fácil de defender em escola, vestibular, faculdade ou blog.
Neste passo a passo, você vai aprender a escrever resenha de clássico com critérios claros, exemplos práticos e um jeito de argumentar que não depende do seu humor do dia.
Resumo em 60 segundos
- Defina o recorte: qual edição/leitura e qual foco (tema, narrador, linguagem, contexto).
- Faça um resumo curto do enredo/ideia central sem “spoiler pesado”.
- Escolha 3 critérios para avaliar (estrutura, estilo, personagens, impacto, contexto).
- Transforme opinião em evidência: cite cenas, escolhas do narrador, padrões do texto.
- Inclua contexto (época, público, valores) sem virar aula de história.
- Aponte pontos fortes e limites com equilíbrio e linguagem neutra.
- Feche com recomendação responsável: para quem funciona e em quais condições.
- Revise para cortar “eu acho” e trocar por observações + consequência.
O que muda quando você tira “eu gostei/odiei” do texto

“Eu gostei” não explica por quê a obra funciona, e “eu odiei” não mostra o que no texto provoca rejeição.
Em uma resenha, o leitor espera um mapa: como a obra é construída, que efeitos ela produz e quais limites aparecem.
Na prática, você continua tendo opinião, mas ela vira análise sustentada por escolhas do autor e por exemplos do próprio livro.
O tripé que sustenta uma resenha forte: descrição, análise e julgamento
Pense em três camadas que precisam aparecer, mesmo que breves.
Descrição é o “o que acontece/como é a obra” sem interpretação exagerada. Análise é o “como o texto faz isso”. Julgamento é o “o que funciona e o que limita”.
Quando você pula a descrição e vai direto para o julgamento, o texto soa gratuito. Quando você descreve sem analisar, vira resumo escolar.
Como escrever resenha de clássico com critérios, não com gosto
O segredo é escolher critérios antes de começar a escrever, como se você estivesse avaliando um filme para um amigo: o que você observaria para explicar a experiência?
Use 3 critérios (não 10) para manter foco e evitar um texto “atirando para todo lado”.
Exemplo de trio que funciona bem: estrutura narrativa, linguagem/estilo e visão de mundo/contexto. A partir disso, você encaixa personagens, ritmo e temas dentro desses eixos.
Passo a passo prático: do rascunho ao parágrafo pronto
Comece com um rascunho de 6 linhas, sem capricho: obra, autor, recorte e impressão geral em termos neutros.
Depois, faça três blocos, um para cada critério, respondendo: “o que o texto faz”, “como faz” e “que efeito causa”.
Por fim, escreva a conclusão como uma recomendação de uso: “serve para quem”, “em que contexto” e “o que pode estranhar”.
Modelo de parágrafo (para copiar e adaptar)
Em vez de dizer que a obra é “chata” ou “linda”, descreva uma escolha concreta e o efeito dela. Por exemplo: o narrador se aproxima do leitor com comentários frequentes, o que cria intimidade, mas também direciona a interpretação.
Feche com consequência: isso ajuda quem gosta de leitura guiada, mas pode incomodar quem prefere ambiguidade e silêncio no texto.
Trocas de frase que salvam sua argumentação
Algumas palavras entregam “opinião solta”. Trocar essas frases muda a qualidade sem mudar sua posição.
Troque “eu gostei da escrita” por “o período curto acelera o ritmo e aumenta a tensão nas cenas de conflito”.
Troque “odiei o personagem” por “o personagem é construído com contradições pouco explicadas, o que pode soar artificial, mas também reforça a crítica social da obra”.
Erros comuns que derrubam a resenha de clássico
Erro 1: resumo gigante. Se metade do texto é enredo, sobra pouco espaço para análise.
Erro 2: moral de hoje aplicada sem mediação. Dá para criticar valores do passado, mas você precisa mostrar o contexto e o efeito na obra.
Erro 3: adjetivo sem prova. “Genial”, “problemático”, “datado”, “confuso” precisam vir acompanhados de exemplo e consequência.
Erro 4: confundir narrador com autor. Narrador pode defender ideias que o livro expõe para problematizar.
Regra de decisão: quando a sua opinião “vale” como análise
Use esta regra simples: se você não consegue apontar uma evidência do texto, sua frase ainda é gosto pessoal.
Evidência pode ser cena, escolha de narrador, repetição de palavras, estrutura dos capítulos, contraste entre personagens ou até o tipo de desfecho.
Quando a evidência aparece, sua opinião vira um argumento que alguém pode concordar ou contestar, mas não ignorar.
Variações por contexto no Brasil: escola, vestibular, faculdade e blog
Escola: priorize clareza e organização. Um resumo curto, 2 ou 3 critérios e conclusão objetiva costumam atender o que o professor cobra.
Vestibular: foque em leitura de efeitos: tema, ponto de vista, ironia, crítica social e como a linguagem cria sentido. Evite “spoiler” e seja econômico.
Faculdade: aumente o rigor: delimite recorte, use termos mais precisos (narrador, focalização, intertextualidade) e cite trechos curtos quando permitido.
Blog: mantenha o texto acessível e honesto. Explique para quem o clássico funciona hoje e o que pode soar estranho, sem ridicularizar o leitor.
Quando vale buscar orientação qualificada
Se a resenha for para nota alta, seleção, TCC, artigo ou publicação institucional, pode valer pedir orientação do professor, monitor, tutor de escrita ou bibliotecário.
Também é útil buscar ajuda quando há risco de plágio por paráfrase colada, dúvida de normas de referência ou necessidade de citação formal.
Isso não é “fraqueza”; é parte do processo de aprender a escrever com critério e responsabilidade.
Prevenção e manutenção: como melhorar suas próximas resenhas

Crie um hábito simples: ao ler, anote 3 cenas e 3 escolhas de linguagem que chamaram atenção. Isso vira matéria-prima para qualquer texto.
Guarde um “banco de critérios” com 6 a 8 itens (ritmo, narrador, personagens, temas, estilo, contexto, estrutura, recepção) e escolha só três por resenha.
Antes de entregar, faça uma revisão específica: corte “eu acho”, reduza adjetivos e verifique se cada parágrafo tem evidência e consequência.
Checklist prático
- Identifique obra, autor e edição usada (quando relevante para a avaliação).
- Defina um recorte claro: tema, estilo, narrador ou contexto.
- Escreva um resumo de no máximo 5 a 7 linhas.
- Escolha exatamente 3 critérios para analisar.
- Para cada critério, registre 2 evidências do texto (cena, padrão, escolha formal).
- Explique o efeito de cada evidência no leitor (ritmo, tensão, humor, estranhamento).
- Inclua ao menos 1 limite da obra com linguagem neutra e justificativa.
- Evite adjetivos vazios; prefira descrição + consequência.
- Cheque se você não confundiu autor, narrador e personagem.
- Feche com recomendação por perfil de leitor e contexto de leitura.
- Revise para cortar repetição de ideias e parágrafos longos.
- Confirme se o texto não vira “resumo com opinião” nem “opinião sem texto”.
Conclusão
Quando você troca “eu gostei/odiei” por critérios e evidências, sua resenha ganha força porque vira leitura argumentada, não desabafo.
Na prática, o leitor passa a entender o que a obra faz, como faz e por que isso pode funcionar para alguns perfis — mesmo que não seja a leitura “mais fácil” do mundo.
Qual clássico você está lendo agora e qual parte dele mais te travou: linguagem, ritmo ou valores da época? E qual critério você acha mais justo para avaliar a obra: estilo, tema ou construção dos personagens?
Perguntas Frequentes
Preciso evitar toda opinião para a resenha ficar “séria”?
Não. A ideia é transformar opinião em análise: observação do texto + efeito + consequência. Assim, sua posição aparece sem virar julgamento solto.
Quantos parágrafos uma resenha costuma ter?
Varia conforme exigência, mas um formato comum é: 1 de apresentação, 1 de resumo curto, 2 ou 3 de análise por critérios e 1 de conclusão. Em prova, menos é mais.
Posso contar o final do livro?
Depende do contexto. Em escola e vestibular, costuma ser melhor evitar spoilers pesados e focar nos conflitos e nos efeitos da narrativa. Se precisar do final para analisar, avise de forma discreta e seja breve.
Como criticar aspectos “datados” sem cair em anacronismo?
Explique o contexto e mostre o efeito no texto: o que o livro normaliza, problematiza ou reforça. Depois, diga como isso repercute hoje na leitura, sem fingir que a época era igual à atual.
O que fazer quando eu não entendo a linguagem do clássico?
Delimite o problema: vocabulário, sintaxe, referências culturais ou ritmo. Use dicionário, notas de edição e releitura de trechos curtos, e leve isso para a análise como efeito de estilo, não como “defeito” automático.
Como não confundir narrador e autor?
Pergunte: “quem está falando aqui?” Se a voz é um personagem ou um narrador com visão própria, trate como uma construção do livro. Mesmo em 1ª pessoa, isso não é o autor “falando de si”.
Tenho que seguir normas de referência (tipo ABNT)?
Se for trabalho acadêmico formal, sim, e vale checar com a instituição o padrão exigido. Em resenha de blog, você pode usar referência simples, desde que seja clara e honesta.
Referências úteis
UFMG — estrutura e tipos de resenha: ufmg.br — tipos de resenha
MEC — documento oficial da BNCC (PDF): gov.br — BNCC (PDF)
ABNT — informações institucionais sobre normalização: abnt.org.br — sobre a ABNT






